Adm. Wallace Vieira*

Segundo o “Relatório de Perspectivas Econômicas da América Latina 2018”, a relação entre os latino-americanos e suas instituições nunca foi tão ruim quanto nos últimos anos, colocando em risco os avanços socieconômicos recentes; o que não significa, no entanto, que os serviços públicos pioraram, mas há uma nova classe média que cobra e exige mais do que antes. E as organizações precisam estar preocupadas com o papel de mudar esse cenário com o que há de mais importante: a responsabilidade social e a boa Administração.

E segue, um em cada quatro cidadãos da América Latina desconfia da transparência das eleições e 80% acredita que seus governos estão envolvidos em corrupção. O informe alerta, ainda, para o aumento da desconfiança nos governos da região, atualmente, cerca de 20 pontos percentuais mais do que em 2016. E, se feita agora, com a atual situação, certamente será ainda maior essa desconfiança.

A falta de confiança se aprofundou desde a crise financeira mundial, de modo que a proporção da população latino-americana que tem pouca ou nenhuma confiança nos governos alcançou níveis próximos a 75% em 2017, um aumento enorme em relação aos 55% em 2010, conforme indica o informe elaborado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Mesmo assim, o relatório alerta para o fato de que a crescente desconexão entre os cidadãos e as instituições públicas pode estar colocando em risco os avanços recentes. E se reflete nos pedidos por maior transparência e uma melhor qualidade de serviços públicos-chave, como educação e saúde. Por exemplo, o documento mostra que a satisfação com a qualidade nos serviços de saúde caiu de 57% para 41%, muito abaixo dos níveis da OCDE, que á algo em torno de 70%. O mesmo ocorre com o sistema educativo, onde o índice de satisfação baixou de 65% para 56% no mesmo período.

Segundo o diretor da América Latina da OCDE, Angel Melguizo, essa nova classe média quer boa educação, saúde, sistemas de infraestrutura e seguranças. E as instituições públicas, às quais eles pagam impostos, não estão respondendo às demandas. Além disso, as novas tecnologias permitem que elas se comparem com outros cidadãos do mundo.

Ainda sobre o informe, ele indica que, com exceção do sistema judiciário – no qual 34% dos cidadãos latino-americanos disseram confiar -, o restante dos indicadores sobre a confiança nas instituições públicas recuou entre 2006 e 2016, e se encontra abaixo dos registrados pela OCDE.

Para melhorar esse quadro, os autores do relatório convocam os países da América Latina e do Caribe a ‘fomentar uma maior integração comercial, reforçar os sistemas de prestação de contas ou aumentar a eficiência do gasto público e da arrecadação de impostos’. Esse dado reflete o fato de que há uma menor tolerância à corrupção, e isso forma parte das novas demandas sociais da América Latina – afirma Melguizo. O fato é que há uma geração de jovens nascidos e criados em uma democracia que pressiona por essa agenda de luta contra a corrupção.

Por usa vez, a perda da confiança tanto nas instituições – cerca de 29% dos entrevistados não confiavam em seus Executivos – quanto nos serviços públicos se reflete também em uma menor vontade dos cidadãos em cumprir suas obrigações com o Estado, alerta o relatório.

Posto isso, certamente, os problemas citados têm na Ciência da Administração forte aliado para a construção de soluções pertinentes e, desse modo, contribuir para reabilitar e reconectar as instituições com a sociedade geral e seus cidadãos.

 

*Adm. Wallace Vieira é presidente do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro