Por Vinicius Romão
Sob supervisão de Érika dos Anjos|
Após a abertura institucional que celebrou o legado da Administração, o ENCAD 2026 mergulhou nos desafios práticos do mercado com a palestra de Gustavo Coimbra. Debatendo o tema “O humano natural e a inteligência artifical”, o especialista trouxe um contraponto realista sobre o impacto dos algoritmos nas estruturas corporativas. Longe de trazer fórmulas prontas, Coimbra iniciou sua fala avisando que o público deveria sair dali com mais perguntas do que respostas para provocar uma reflexão sobre a urgência de uma governança integrada.
Fazendo um paralelo sutil com a LigIA, a inteligência artificial do CRA-RJ apresentada minutos antes, o palestrante lembrou que a tecnologia se porta bem na superfície, mas sua eficácia depende intrinsecamente da gestão humana nos bastidores.
“O desafio hoje não é a conectividade, que já é onipresente, mas sim como criar uma gestão humana capaz de lidar com essas frentes que nos desafiam o tempo todo”, pontuou.
Segundo ele, a IA acelerou os processos de automação a um nível sem precedentes, exigindo que o Administrador atue como o garantidor ético e eficaz desse desenvolvimento.
A velocidade das transformações também redesenhou o papel do setor de Recursos Humanos. Coimbra relembrou que, há 30 anos, as diretorias desenhavam planos de ação rígidos para três, cinco, dez anos. Um modelo impensável no cenário dinâmico atual. O RH, historicamente confinado a tarefas táticas como contratações e folhas de pagamento, foi bombardeado por novas responsabilidades estratégicas. Hoje, o setor precisa responder diretamente pelo sucesso do negócio, mediando conflitos de governança, sustentabilidade e, crucialmente, saúde mental.
Essa pressão reflete-se na liderança. Apoiado em pesquisas robustas do setor, Coimbra revelou dados alarmantes: 56% dos líderes atuais sentem sua saúde mental severamente drenada pela rotina corporativa, e 33% não se sentem devidamente capacitados para os novos desafios que enfrentam. Esse esgotamento coincide com um momento em que as empresas precisam gerenciar a coexistência de até quatro gerações diferentes sob o mesmo teto, lidando simultaneamente com pautas urgentes de diversidade de gênero e idade.
Um dos paradoxos mais evidentes trazidos pelo palestrante reside na escassez de mão de obra qualificada. Enquanto a tecnologia avança, 81% das empresas brasileiras enfrentam dificuldades para preencher vagas, especialmente em setores vitais como transporte, logística, finanças, energia e TI. O cenário nas médias e grandes corporações é de que 98% delas relatam dificuldades para encontrar especialistas em IA e desenvolvimento de software, um nicho cuja demanda disparou mais de 300%.
Diante desse cenário, Coimbra sugere que a melhor saída pode ser o desenvolvimento interno.
“Pode ser muito mais interessante para as empresas formarem seus próprios talentos em novas funções de IA do que buscar um especialista inexistente no mercado”, explicou.
Essa formação interna precisará dialogar com as características singulares da Geração Z. O estudo apresentado indicou que, embora 74% desses jovens já compreendam que a IA generativa vai transformar suas funções, mais de 50% deles vivem em constante insegurança financeira. O dado mais surpreendente, contudo, aponta que apenas 6% dessa geração almejam alcançar cargos de liderança. O principal motor de carreira para eles passou a ser o propósito.
“Se eles não querem liderar, quem vai liderar as empresas no futuro? Precisamos mostrar que liderar é real, possível e interessante, trazendo os jovens para o protagonismo desse desenvolvimento”, alertou.
O ponto mais crítico da apresentação abordou a fragilidade institucional com que a IA vem sendo adotada: apenas 20% das organizações testaram planos estruturados de resposta a falhas tecnológicas por meio de simulações. Além disso, 78% dos executivos admitem que suas empresas não passariam em uma auditoria independente de governança de IA em um prazo de 90 dias.
Para o palestrante, há um paradoxo preocupante nos conselhos administrativos, que aprovam grandes aportes financeiros em inovação tecnológica, mas ignoram a estruturação de planos de segurança digital e governança regulatória.
Gustavo encerrou sua apresentação reforçando a necessidade de uma cultura de aprendizado constante nas organizações. Segundo dados da Deloitte, a vida média de qualquer competência técnica hoje gira em torno de apenas cinco anos.
“Não há inovação sem aprendizado novo. O humano natural não vai desaparecer na era da inteligência artificial. A organização precisa colocar esse humano no centro de sua estratégia, pois tudo o que fizemos e que nos trouxe até o dia de hoje não necessariamente nos levará ao próximo passo”, concluiu o palestrante, que recebeu seu certificado das mãos da conselheira do CRA-RJ, Adm. Rosangela Arruda.
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