Por Vinicius Romão
Sob supervisão de Érika dos Anjos|
A Adm. Paula Chimenti abordou em sua apresentação, “Hibridismo – As Realidades Aumentadas”, onde dedicou os primeiros minutos a explicar, na prática, como a Inteligência Artificial compreende linguagem: por meio de vetores semânticos, posições matemáticas que aproximam palavras como “maçã” e “laranja” e afastam outras. A mesma lógica, segundo ela, vale para outras relações óbvias, como macho e fêmea, ou país e capital. E deixou uma provocação para o público: “Se eu confiscasse seu telefone agora, o quanto da sua capacidade de trabalho eu ia levar comigo?”
A pergunta resume o argumento central da palestra: o acesso à IA deixou de ser um diferencial. Presente em praticamente todos os bolsos, a ferramenta já não separa quem se destaca de quem não se destaca. Segundo Chimenti, o que causa essa separação hoje é a hibridização: a capacidade de transformar essa presença constante da máquina em mais qualidade e mais quantidade de pensamento, em insights que um profissional sozinho não alcançaria.
Ela ilustrou essa ideia com a história do enxadrista Garry Kasparov ao enfrentar o Deep Blue, um supercomputador treinado por humanos com milhares de partidas para absorver táticas e movimentações. Na época, Kasparov disse que não importava quem venceria, mas sim se aquele “xadrez híbrido” continuaria interessante. Anos depois, o AlphaZero, uma IA programada apenas para aprender jogando contra si mesma, superou os softwares tradicionais e, nas palavras de Kasparov, abalou as raízes do jogo. Ele e outros grandes enxadristas passaram a estudar as táticas da nova tecnologia para aprender com ela. Para Chimenti, é esse o movimento que cabe a qualquer profissional hoje.
Essa hibridização, segundo ela, é produto gerado por um humano e uma IA que alternam continuamente entre conceber e executar, e o resultado depende de como essa alternância é orquestrada, não de quanto cada lado contribui isoladamente. Como todos têm acesso à mesma ferramenta, a vantagem competitiva passa a ser a orquestração dela, e o que efetivamente diferencia um profissional do outro é a marca humana que ele imprime nesse processo: a distinção.
Paula descreveu três frentes onde essa distinção está sendo disputada: na cognitiva, onde a autoria migra da criação para a curadoria; na relacional, onde surge um distanciamento quase performático da IA, uma forma de proteger a própria identidade; e na institucional, em que o controle estético do trabalho vira marcador de status, quando esconder o uso da ferramenta passa a valer mais do que usá-la. A provocação que ela deixou no ar é: até quando vamos continuar dando status a tarefas que dizemos ter feito “sozinhos”?
No mercado de trabalho, o recorte que ela propõe é de que a IA não substitui profissões inteiras, mas tarefas específicas. Por isso, o impacto tende a pesar mais sobre atividades já otimizadas e repetitivas. Chimenti apontou uma contradição pouco confortável: as profissões mais expostas ao risco são justamente as que entregam texto como produto final. A geração da ideia continua sendo híbrida, mas a redação final é só da máquina.
Paula fechou sua fala voltando à imagem com que começou: se a IA entende o mundo posicionando palavras em vetores, ela defende que cabe às organizações, e aos próprios profissionais, pensar a trajetória da mesma forma: saber onde estão, qual é o vetor que estão seguindo, e aonde, de fato, querem chegar.
O Encad 2026 está completo no canal do Youtube do CRA-RJ.



